Dessa vez acho que não ficou tão bom o relato...
Mas ficam as lembranças.Sábado, 17 de outubro de 2009
Mesmo tendo que trabalhar, fiquei em casa para terminar um trabalho e descansar o corpo para o desafio de domingo. Claro que 200KM tem de ter uma preparação diferenciada!
Às 16 horas o Assis passou na minha casa e fomos em direção ao DC Navegantes pegar os nossos passaportes e as placas de identificação para as Bikes. O Assis estava de carro novo e eu ainda não conhecia. No trajeto da minha casa até o DC já percebia que o clima na capital estava diferente...
Mais bikes na rua!!!
Pode ser só impressão de uma mente cansada!
Fomos bem rápidos e específicos. Assinamos toda a papelada, cumprimentamos algumas pessoas legais, essas coisas de sempre e eu voltei pra casa pra terminar o meu trabalho.
Era aniversário da Ana Paula, e ela me convidou para comparecer no seu aniversário as 20h30. Preparei tudo e sai de casa às 21h. Não fiquei muito, antes da meia noite já estava em casa.
Domingo 18 de outubro de 2009
O horário de verão é SODA...
Fiquei a noite inteira me revirando na cama só pensando que teria de acordar mais cedo do que deveria se ainda estivéssemos no horário de 'inverno'...
Então o relógio toca as 5:30. Como eu não tinha conseguido dormir, levantei de um pulo só. No sábado combinei com o Assis de chegar às 6h no DC e por isso nem me embromei muito em casa. Juntei todos os acessórios
Já na rua o dia estava noite?! A rua deserta, não tinha uma viva alma acordada.
Me deu a impressão de dejá-vu, porque a cena era bem parecida daquela quando chego em casa depois da aula todos os dias.
Liguei o pisca traseiro, a lanterna dianteira e sai em direção a Farrapos. Entrando na farrapos encontrei algumas almas perdidas voltando de sei lá aonde
Quinze minutos depois entrei no DC Navegantes.
Logo na chegada tinha uma muvuca.A vistoria ainda não tinha começado e o pessoal já estava impaciente. Um falatório, risadas, piadas pra cá, correria de troca de pneu.
Eu como sempre organizado
Fiz a vistoria e entrei na área reservada. Lá dentro encontrei o Assis e começamos a conversar e esperar pela largada. O clima em geral estava bom, não estava frio e o pessoal parecia bem empolgado com a atividade. Conversando com o Assis percebi que ele estava meio receoso, pensativo e com a cabeça em outro lugar.
Chegada às sete horas e nada da Ninki dar a largada... alguns começaram a ficar impaciente. Como eu não tinha pressa, fiquei na boa. A largada atrasou uns dez minutos, porque tivemos um alongamento em grupo bem interessante.
Largada às 7:10.
Dada a largada, seguimos em direção a ponte do Guaíba. Tínhamos um carro
Depois que o carro saiu, foi uma debandada geral. Quem estava na frente pedalou mais rápido e se perdeu no meu horizonte. Como eu estava descansado, comecei a pedalar com uma média de 28 km/h e me sentia bem naquela velocidade.
Fui ficando pra trás e logo encontrei o Lúcio. Fomos conversando um bom trajeto e mais gente se juntou ao grupo. Assis chegou e pegou a atenção do Lucio e eu fiquei pra trás conversando com outro cara, chamado Filipe, descobri que tinha vindo da serra
Quando estava marcando 20 km percorridos no meu ciclocomputador, ouvi um baque na parte de trás da minha bike. Olhei e vi o Lúcio, que me disse:
- “Tua roda está bamba, acho que quebrou algum raio”
Resolvemos parar perto de uma placa para verificar. Naquela hora, testei a tensão dos raios e verifiquei que estavam frouxos, mas não quebrados. Lúcio me orientou a chegar no primeiro PC e falar com o pessoal do suporte que estaria nos esperando.
Parada para conferir os raios.
Continuei pedalando, mas minha cabeça não saia da porcaria de roda que mais parecia um oito. De tempos em tempos eu olhava por de baixo da minha perna e via aquilo fazendo zigue-zague e comecei a pensar no pior… em talvez não conseguir concluir a prova
Mais alguns quilômetros e chegamos no pedágio Univias. Que alegria ver que estava saindo da BR290 e entrando na RS401. Como sempre o Assis está me esperando
Fomos comentando sobre a estrada mais tranqüila que teríamos pela frente.
Passando pelo pedágio.
Com 53km marcados passei pelo Postaço buzinando e como não vi ninguém parado ali, resolvi seguir em frente. Tinha combinado com o Assis de nos encontrarmos para tomar um café, mas naquela hora meu humor não estava muito bom por causa da roda. Continuei mantendo a média de velocidade de 25km/h e pedalando sozinho.Por duas vezes eu senti uns estalidos na minha roda, mas não tive coragem de parar para verificar.
É legal dessas provas, de ver a curiosidade das pessoas. Quando eu estava passando pela entrada de São Jerônimo, um casal em um palio azul reduziu a velocidade para falar comigo. Perguntaram o que era aqui que eu estava fazendo. Quase não consegui escutar o que perguntaram, porque naquela velocidade o vento fazia pressão nos meus ouvidos…
Respondi que era uma prova de cicloturismo e que estávamos vindo de Porto Alegre e que iríamos até Vale Verde e depois voltaríamos. Eles agradeceram a explicação e seguiram viajem. Eu continuei pedalando e escutando o meu rádio.
Mais uns cinco quilômetros eu alcancei um cara que estava em uma bike speed azul. Fui no vácuo dele até passarmos a ponte do rio Jacuí. Quando passamos a ponte eu falei pra ele que ainda faltavam uns cinco quilômetros até o PC1, ele ficou aliviado e seguimos conversando.
Ponte do rio Jacui ao longe
Finalmente o PC1 e quem sabe uma solução para os raios da “Complementar”!!!!!. Quando eu olho pro lado está o meu colega dando ‘vivas’ bem alto!!
Chegando no PC, peguei a minha banana e barrinha de cereal, assinei a ata e fui falar com o mecânico da RODOCICLO. Fiquei sabendo que não tinha como consertar, mas que se eu quisesse continuar, poderia arrancar os raios quebrados e centrar como pudesse a roda… disse que era pra ele fazer que eu iria até aonde pudesse assim.
O sol começou a machucar a cabeça, aproveitei para passar protetor solar e comer alguns mantimentos. Minutos depois quando eu estava saindo, encontrei o Assis e o Darvin chegando no PC. Cumprimentei-os e sai pedalando.
O trajeto do PC1 até o PC2 eu não fiz no desafio, mas tinham me contado que era muito sobe e desce. Comecei a pedalar mais temeroso. Logo na saída, comecei a sentir o vento ‘chamando’. Percebi que a estrada é bem boa para se pedalar, uma calmaria apenas atrapalhada pelas motos que passavam.
Estrada bem boa, vê se não parece o Tour?.
Os descampados parecem com algumas etapas do Tour de France
Bem no final do trajeto, tem uma subida que
Logo larguei a bike em uma árvore e fui apresentar o meu passaporte para ser carimbado no PC2. Estava um entrevero. Bastante gente já tinha chego e estava pegando o almoço. Me dirigi para a fila que estava enorme! Pra variar o Graxa estava fazendo tumulto para pegar o seu prato de massa com galinha, hehehe
Almoço bem bom!
Achei o lugar bem legal, até tinha uns cachorros que ficavam com aquela cara de pidão sabe?! Mas como eu estava com muiiiiiiiiiiiiiita fome não pude repartir com eles!
Depois de forrar o estrombo, fui me alongar e fiquei sentado na grama descansando a senhora minha bunda que já dava sinais de dores
O Assis saiu antes e me disse que queria chegar mais cedo
Na saída me senti mais descansado, mas foi só depois da primeira lomba que o vilão da história mostrou as suas garras. Lembra da subida maldita que eu falei que subi caminhando?
Pois é, teoricamente pra baixo todo santo ajuda… mas não foi o que pareceu. Logo no começo da descida tive que começar a pedalar para sair do lugar!!! O vento contra fazia a bicicleta parar.
Nunca 30 km passaram tão devagar... parei no posto aonde ficava o PC1 para molhar a cabeça, porque o sol estava matando. A combinação meio dia + vento = Cansado³. O carro da organização estava estacionado ali, então pensei em calibrar a garrafinha, mas me enganei... o UNO MILHO só estava lá para um apoio de orientação.
Uno Milho estacionado.
Depois de refrescar a cuca, voltei para a estrada e o caminho se tornou cada vez mais desgastante. Eu olhava para o velocímetro e não conseguia ultrapassar a velocidade de 16km/h. Quando passava por lugares mais fechados
Passando pelas cidades o animo melhorou, mas não foi suficiente para não me fazer desistir.
Quando cheguei no PC3 e vi o Assis atirado em uma cadeira todo molambento, foi um alivio saber que eu não era o único. Carimbei o meu passaporte e fui direto comprar um sorvete com muiiiiiito chocolate. Já não agüentava mais beber água, mesmo sabendo que deveria beber (até porque os meus lábios estavam secos). Reabasteci as garrafas e comecei a me alongar, porque a coisa estava feia.
Postaço descansando.
Começou o jogo do Grêmio e eu liguei o meu celular na Pop rock. Aproveitei pra trocar uma idéia sobre a condição física dos outros ciclistas e ouvi de todos que estava desgastante, mas quem chegou até ali, mais 50km não seria nada.
Meia hora depois estava pedalando de novo. Refiz mentalmente o caminho faltante e a imagem da BR290 não me saiu da cabeça...
O trajeto do Postaço até o pedágio Univias foi a parte mais tranqüila da volta. Tem muitas arvores e morros. As subidas matavam os músculos e nas descidas em nem pensava em pedalar, deixava que a gravidade ajudasse. Perto de um vilarejo me juntei a dois ciclistas que foram comigo até o final da prova. Um deles é carioca e estava conhecendo o audax aqui do sul e o outro era um senhor de Montenegro que estava testando o joelho esquerdo depois de sofrer um acidente de moto. Conversando o percurso passou bem mais rápido do que eu imaginei, mas ainda faltava 30km. Paramos no pedágio da Univias para encher as garrafinhas e descansar a bunda.
Meia hora descansando e no momento que íamos sair, o Assis chegou. Rapidamente ele se aprontou e saímos todos juntos.
Faltava só 30 km, se eu estivesse em Porto isso não seria nada... mas esta é a maldita 290!
Um trecho de reta, totalmente descampado. Um vento lateral que me matava, o sol continuava brilhando, mas dessa vez ficou pra trás.
Tentamos nos revezar na frente do vento, mas não adiantava muito porque a mente já não raciocinava direito (eu literalmente só pedalava, nem conversar mais eu estava fazendo). Metade do grupo se dispersou por cansaço. O Assis como sempre me deixou para trás.
Nessa hora, tive a impressão que cada quilometro que eu percorria parecia cinco na minha cabeça. Não conseguia desgrudar os olhos do ciclocomputador.
180km marcados e nada de chegar o viaduto para sair daquela reta maldita. Olho para a frente e avisto o Assis parado no acostamento esperando. O grupo passou por ele e eu perguntei se estava tudo bem, e com o sinal de positivo continuei no sofrimento. Dois quilômetros depois eu olho pra trás e não via mais o Assis... como não conseguia pensar em mais nada que não seja chegar no meu destino, continuei pedalando.
Minha bunda já estava anestesiada de tanta dor. Cada vez que eu me levantava do selim, era um êxtase. Minha bunda ficou tão dolorida que até hoje estou sentindo-a!
Quando saímos da reta e entramos na via em direção a Eldorado do sul, o vento deu uma trégua mas mesmo assim não tinha mais perna para acompanhar a velocidade imposta pelo grupo. Deixei eles irem na frente e mantive o meu ritmo de 18km/h.
Passei o segundo pedágio e a entrada de Eldorado do sul.
Ufa, faltam só as pontes!
Um grupo que estava na frente parou. Estavam discutindo se deveriam esperar a policia rodoviária federal para nos escoltar na passagem das pontes. Juntamos um grupo e continuamos assim mesmo.
Começou a escurecer e eu liguei a minha lanterna. O fluxo de carros aumentou e comecei a ficar com medo de não conseguir ultrapassar a via na ponte móvel.
Ainda bem que do lado de volta para Porto Alegre as pontes têm laterais fechadas e o vento ficava mais reduzido. Meu pensamento era somente em acabar a prova.
Chegada na ponte.
Passei a ponte móvel esperando o fluxo reduzir, desci as elevadas e entrei no DC.
Que alegria!!!
Nunca me senti tão feliz em terminar. Chegamos e tinha uma musica de vitória tocando e aplausos gerais.
Assinei a ata e entreguei o passaporte para a organização. Um pessoal queria informações sobre a estrada e os outros ciclistas que estavam por vir, respondi o que eu sabia e literalmente me atirei no chão. Já não sentia mais nada, não sentia minha bunda, costas, coxas, ombros... putz, parecia um velho.
Atirado no chão.
Comendo uma banana pra recuperar o potássio, valeu Romi!
A irmã, o cunhado e o pai do Assis estavam esperando ele e vieram falar comigo. Conversei rapidamente sobre a prova e fiquei preocupado, porque normalmente ele chega antes de mim...
Meia hora depois ele chegou com um pelotão, e então ficamos sabendo que todas as suas câmaras furaram e que percorreu 15 km só no aro.
Nesse momento que as risadas saem mais fácil, cada vez que alguém chegava, era aqueles aplausos acalorados. Impressionou-me uma senhora que estava com o braço na tipóia e acabou a prova.
Li no site do Poa Bikers sua história.
Ela quase não conseguia ficar em pé, um exemplo de garra e superação. Essa imagem nunca mais vai sair da minha cabeça. Lembro que na hora que eu estava saindo do PC2, ela estava chegando para almoçar e subindo a lomba enorme.
Entrega da medalha!
Darvin, eu e Assis. Turma Datacom em peso!
Entregue as medalhas e os certificados, me despedi do pessoal e subi na ‘Complementar’ para enfrentar mais dois quilômetros até em casa. Claro que eu fui pedalando em pé, mas nessa hora eu não tinha pressa porque o que tinha de ser feito já estava feito.
Cheguei em casa finalmente. O banho demorado e a janta foram as únicas coisas que consegui fazer a mais pelo domingo.
Foto básica antes de voltar para a casa.
Gostaria de agrader toda a organização maravilhosa da Sociedade Audax de ciclismo, que sempre faz um trabalho impecável e desta vez não podia ser diferente. Estava tudo perfeito, muito obrigado!!!!
Pessoal da organização. Muito obrigado!
Números do Conrado:
Largada: 07:10
PC1 : 10:25
PC2: 12:01
PC3: 15:56
Chegada: 19:41
Tempo de prova: 12:31
Tempo de pedalada: 10:31
As fotos aqui postadas são de autoria diversas. Os links podem ser encontrados no site da Sociedadeaudax Valeu!
Beijos e Abraços.
O Novo ;)








3 Pensamentos dos leitores:
Mais uma vez conseguiste me "transportar" para dentro da prova ao ler o teu texto...
Como já disse antes, é incrível como consegues passar para as tuas palavras as tuas emoções e sensações...
Tanto é que fiz o percurso, cansei e quase desisti ao chegar no meio da leitura.
Mas aí lembrei que existe um verbo que não combina muito com a tua pessoa: DESISTIR!!
Sendo assim, continuei a ler e a - mentalmente - participar do desafio, pois eu tinha a certeza que era o que farias.
Parabéns por - mais uma vez - conseguires te superar.
E que venham os próximos Km, os próximos desafios...
Que venham os próximos textos...
P.S.: eu disse que deverias ter dado mais atenção para a "complementar" no sábado, porque ela poderia acabar reclamando.
Viu só no que deu...
Mas ah! Tchê, meus parabéns pela vitória! 200km não é para qualquer um.
O texto está muito bom. Faço minhas as 0alavras da Marina: conseguiu nos transportar não só para o texto, mas como para a prova.
Abração.
Grande Conrado,
Foi um prazer pedalar contigo nesses loooongos quilômetros de vento contra. O papo foi importante pra manter a motivação. Sozinho é mais difícil. Ótimo relato.
Abraço
Edu (carioca)
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